SECÇÃO: Sintra
Óbito
Na morte de Ana Daniel
| A poeta sintrense Ana Daniel faleceu no dia 30, na sequência de doença prolongada | |
Entre muitos dos poetas que preferia, a norte-americana Emily Dickinson ocupava um lugar de destaque.
“Um dos motivos dessa admiração residia na discrição da sua vida e na forma reservada, quase de clausura, com que escrevia e guardava os seus trabalhos, sem qualquer urgência de reconhecimento ou planos de publicação”, disse Fernando Sousa, um dos cinco filhos, jornalista e co-depositário do seu espólio literário.
Ana Daniel nasceu em Lisboa, Campo de Ourique, em 1928, filha, com mais quatro irmãos, de Mário Canellas e de Maria Eugénia d’Oliveira Canellas. Casada com Fernando d’Assunção Sousa, trocou, em 1950, o bairro da sua juventude, Campo de Ourique, por Sintra, onde passou a viver e teve cinco filhos.
Entregou-se à poesia aos quinze anos, com trabalhos publicados em jornais e revistas nacionais e do então Ultramar. Ganhou prémios juvenis, assinando por essas idades com Ana Arlési, o seu primeiro pseudónimo. Mas foi aos vinte anos que deu à sua escrita o rumo e a intensidade que marcaram o seu trabalho poético.
A obra recolhida em Momento Vivo (Edições Panorama, 1970), o seu primeiro livro, Prémio do Concurso de Manuscritos de Poesia de 1969, é a palavra entre a estranheza e o irreparável.
Nos Olhos das Madrugadas (Arbusto Editores, 2010), o último, é já a solidão com corpo e alma, tecida por perdas e ausências, e pela saudade, porventura o sentimento mais recorrente do seu lirismo, uma filigrana de emoções ora de aceitação ora de inconformismo – aqui de abandono, desencanto e quase rebelião.
Além de Dickynson, nutria uma admiração particular por Robert Browning, Rosalía de Castro, Sebastião da Gama, Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), Sophia de Mello Breyner, Pablo Neruda, Eugénio de Andrade ou Florbela Espanca, que admirava, cada um por motivos diferentes, como espíritos maiores de um mundo obrigado a ser terreno, contingente e mortal.
4 Dez 2011, 20:50h
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